Para apresentar um mestre: Edward Gorey

Por Luani Guarnieri

Hoje não vou falar de uma obra específica, mas da bibliografia de Edward Gorey. Embora seu trabalho não seja muito conhecido no Brasil, certamente um de seus mais ilustres admiradores é Tim Burton. Toda a maldade e morbidez dele teve um ponto de partida.

Seu traço e estilo beberam na fonte dos livros de Gorey. Logicamente que nem ao menos de longe trataria-se de um plágio. Apesar do gosto pela morbidez e piadas de humor incomum, Tim Burton possui um diálogo mais infantil e muito mais lúdico. Burton constrói mundos fantásticos com toque sombrio. Gorey faz piada com situações possíveis, com as fraquezas humanas, com o que acreditamos achar, de certo modo, repugnante. Basta ler a maldade com toques ingênuos do O triste fim do menino ostra e outras histórias de Tim Burton, e qualquer um dos livros tragicômicos de Gorey. Outro grande nome que confessa sua admiração pelo trabalho de Gorey, e de não menos peso, é Neil Gaiman. E mais uma vez não fica difícil encontrar aspectos de similaridade entre os estilos.

Deixando de lado as comparações, a carreira de Gorey começou como ilustrador. Fez várias capas de livro quando trabalhou no departamento de arte da Doubleday Anchor. Suas melhores capas foram de romances policiais e grandes clássicos como Drácula. Por que será? Sua primeira publicação independente foi aos 28 anos, com Unstrung Harp. Desde então, e até sua morte, foram 98 obras publicadas, entre títulos em inglês e francês.

Embora seu trabalho seja consumido pelo público infantil, ele nunca teve esse foco. Não sei exatamente por que existe tal empatia com as crianças. Seja pelo traço infantilizado e o uso recorrente de protagonistas infantis, ou pelo constante uso do humor, acredito que sua obra possua muito mais um caráter universal de público do que um foco infantil ou adulto. Crianças gostam pela diversão mórbida de desenhos e histórias. Adultos gostam pela mesma morbidez.

Um bom exemplo desta “morbidez universal” seria o The Gashlycrumb Tinies, de 1981. A capa já conta muito do que você terá pela frente, uma morte “protegendo” seus pequeninos. Este amparo não é à toa: embora esta figura não apareça em mais nenhum momento no livro, ela é a grande responsável por cada situação. O livro possui 26 personagens ao longo de 26 páginas. Um alfabeto de crianças e seus encontros com a Morte. Sim, é exatamente isso, as crianças foram organizadas por ordem alfabética de nome, com frases curtas e ritmadas de como suas vidas chegaram ao fim.

Seu traço é muito característico, preenchido por hachuras em diferentes direções e intensidades. São pouquíssimas as obras com cor, e até mesmo quando as emprega, seu uso é pontual. Três ou quatro cores no máximo em alguns detalhes para que seus desenhos não percam a característica da hachura ou virem uma poluição visual de cores e formas. Tudo muito bem pensado, muito bem organizado.

Gorey não trabalha com muitos planos, mas seus desenhos contêm verdadeiros passeios de câmera. Tudo é muito situacional, figurativo e espacial. Não existem espaços para metáforas visuais abstratas. Elas existem cravadas no momento do registro da imagem. É o mesmo exercício de entender uma fotografia, neste aspecto. Por isso seu trabalho é denso, e sua ilustração é a imagem do seu texto. Ambos são fiéis à mesma proposta de desnudar atos e deixá-los tão explícitos que adquirem um traço de humor. E Edward Gorey faz isso tão bem – essa relação complementar de texto e imagem – que algo que poderia causar constrangimento ou incômodo ao leitor traz o divertimento e a ironia.

Pensar nisso, por um lado, é assustador: transformar o leitor em um apreciador da morte de criancinhas. Mas a relação não é assim literal, não é tanto com aquele fato específico em si, mas com a caracterização de tantas coisas proibidas pela censura dos bons costumes, que um autor tão hábil consegue traduzir em rimas e desenhos infantilizados e macabros.

Embora carregado de crueldade, ele mesmo classifica sua literatura como nonsense, aos moldes de Edward Lear. Talvez seja essa cara nonsense que o permita trabalhar com tanta tragédia e ao mesmo tempo ironizá-la. Mas seu trabalho vai além disso: além de um grande ilustrador, ele também foi um feliz experimentador, criando livros em formatos diferenciados e pop-ups. Também trabalhou como figurinista e cenógrafo da peça Drácula montada para a Broadway, ganhando prêmios e menções honrosas por esta.

Seus vários trabalhos ganharam compilações, gerando 4 volumes: Amphigorey (1972), Amphigorey Too (1975), Amphigorey Also (1983), Amphigorey Again (2006). Embora sejam maravilhas porque você tem vários livros em um só (felicidade pura, como Toda Mafalda, de Quino…) o que peca é a edição. Enquanto os livros individuais são lindos, pequenos e de capa dura, o que combina e muito com a sua obra, estes 4 volumes deixam um pouco a desejar. São do tamanho de um A4, brochura, uma impressão muito das mais ou menos e um papel tão ruim que até sulfite escolar ficaria melhor. Paciência. Não deixa de ser uma boa forma de ter contato com a obra de uma maneira geral. Bem, como este post já está meio longo, agora deixarei algumas dicas de leitura para quem se interessar em conhecê-lo melhor:

The world of Edward Gorey: Um livro escrito logo após sua morte, trata de sua vida e obra.

The Elephant House: ÓTIMO. Um livro de fotografia que desvenda a casa em que Edward Gorey viveu seus últimos anos de vida. Um passeio por coisas estranhas e excêntricas.

The hapless child: Pouco a dizer. É o meu predileto. Edição impecável da Pomegranate.

E, por favor, me ajudem na campanha “HELLO, EDITORAS!” para que alguma traduza pelo menos algumas obras dele por estas bandas!

 

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