Enquanto a Amazon não chega...

Alguns anos atrás, o mercado de e-books nos EUA era mais ou menos como o brasileiro é hoje: uma incerteza geral entre editoras e livrarias, algumas experimentando com o formato digital, outras não acreditando muito nele e vendas em geral insignificantes. A reviravolta neste setor foi causada, em grande parte, pelo Kindle, da Amazon: quando ele se tornou um aparelho realmente barato e de qualidade, que ainda por cima dava acesso a todo um catálogo enorme de livros com preço menor do que o dos impressos, de repente os leitores americanos viram vantagens na leitura digital que iam além da comodidade de não precisar encher as estantes com pilhas de volumes encadernados. Assim começou o crescimento acelerado dos e-books que vemos por lá hoje.

Detalhe importante: o primeiro Kindle foi lançado em 2007, ano em que ainda não havia nem boatos sobre iPad e em que os smartphones engatinhavam. Ainda faz sentido falar em e-readers quando já podemos entrar em qualquer loja e escolher entre 15 mil gadgets com infinitas funções? Por que eu gastaria meu rico dinheirinho num aparelho que serve só para ler quando eu posso comprar um que me permita assistir filmes, checar meus e-mails, pokear meus amiguinhos no Facebook, fazer check-in no Foursquare a cada vez que vou a um lugar bacanudo e ainda ler?

É, moço, não vai ser fácil ler Ulisses nessa tela.

Bem, eu particulamente estou mais do que acostumada a ler na tela do computador, já que estou familiarizada com este maravilhoso aparelho desde que sua única utilidade para mim era rodar um CD-ROM do Rei Leão. Por isso, imaginei que ler um e-book inteiro na tela de um tablet não seria problema – e realmente não é, inclusive já consegui ler alguns livros-tijolo nele. Porém, notei algumas desvantagens: depois de horas de leitura contínua, vem aquela dor de cabeça familiar, além de um certo desconforto por ficar segurando um aparelho que, convenhamos, não é tão leve assim. Além do mais, acostumada que estou a trabalhar no computador com quatrocentas mil janelas e abas abertas, sou fisicamente incapaz de ter um iPad na mão e não fazer uma pequena pausa na leitura para dar só uma olhadinha no Twitter, responder só um e-mailzinho e por aí vai. Além disso, a duração da bateria é incomparável: se a de um iPad chega a 10 horas, a de um e-reader qualquer pode chegar a meses, dependendo da frequência com que você lê. O detalhe do preço pode não ser mais tão importante lá fora, onde já existem tablets por 200 dólares, mas aqui no Brasil – onde um iPad custa no mínimo R$1900 – acredito que um e-reader simples e barato poderia contribuir muito para popularizar a leitura de e-books.

Ok. Então você, leitor voraz e entusiasta dos livros digitais, decidiu ter um aparelho dedicado à leitura, mas você não pretende sair do Brasil no futuro próximo, não tem um amigo prestes a ir para Nova York ou Miami ou sei lá onde mais as pessoas vão para trazer muamba, e também não gosta da ideia de pagar um imposto gordo para comprar um Kindle direto do site da Amazon. O que é que você pode comprar aqui mesmo na terrinha?

É nesse ponto que esbarramos numa das grandes barreiras que dificultam a popularização dos e-books por aqui. Se pagar 2 mil reais por um tablet já é algo difícil de engolir, encontrar algum e-reader que valha o seu dinheiro beira o impossível. Eis alguns dos que eu já testei.

A lanterninha, olhe para essa lanterninha

Este aqui ao lado atende pelo amigável nome de Sony Reader PRS-600BC. Depois de testar, digo que é um aparelhinho realmente simpático. Sério, ele é tão meigamente desajeitado que tenho vontade de abraçar a Sony pelo esforço. Reparem: ele vem com essa prática capinha de couro que tem embutida uma lanterninha numa haste flexível, tornando possível ler no escuro, o que era uma vantagem dos tablets – e continua sendo, porque olha, é possível, mas não é nada cômodo. Agora atentem para outro detalhe: o bichinho tem tela de toque, mas ela é tão responsiva, mas tão responsiva que acharam por bem colocar um conjunto de botões que dão conta de praticamente toda a navegação. E sabe quanto custa essa coisa fofa? 750 reais. É sério, vamos dar um abraço nessa empresa.

Para ser justa, devo dizer que, apesar dos pesares, a leitura no Sony Reader é muito confortável. A virada de páginas é um pouco lenta (um problema comum a muitos aparelhos do tipo), mas nada que comprometa, e a tela, ainda que reflita um pouco mais luz do que a maior parte dos e-readers (como dá pra ver na foto), não cansa os olhos. Só achei um pouco pesado, o que nos leva ao próximo aparelho:

Não tenho comentários a fazer a respeito da escolha de nomes desta empresa.

Sendo bastante sincera, se eu não manjasse nada de e-books e me deparasse com um e-reader chamado Cool-er com corpo de cor berrante, um Gato Sabido na tela e peso mais ou menos equivalente ao de cinco feijões, não hesitaria em deduzir que ele veio das mãos de escravinhos chineses e viajou num bote inflável e depois num caminhão de bóias-frias até chegar aos nossos amigos da 25 de Março. E, consequentemente, não pagaria mais do que 150 reais (sendo generosa) pelo trequinho. Só que ele custa setecentos e dezenove ricos reais.

Falando sério, o Cool-er não é um aparelho ruim. Ele é realmente muito leve e, portanto, muito confortável para ler durante várias horas, tem velocidade razoável e a navegação é extremamente simples, feita só por aquele botãozinho redondo ali embaixo. Não tem wi-fi e nem tela de toque, mas, se tivesse um preço muito mais baixo, seria uma boa compra para quem procura um aparelho dedicado à leitura. Agora vem a parte realmente genial: a empresa que fazia essa maravilha, a Interead, faliu, e agora simplesmente não há atualizações de firmware para o bichinho há mais de um ano. Visto que todas as outras empresas respeitáveis do ramo lançam um aparelho novo por ano, seria de se esperar que o Cool-er fosse ficando cada vez mais barato à medida que fica mais e mais ultrapassado. É uma pena que isso não tenha acontecido.

Além destes dois, ainda é possível encontrar nas lojas brasileiras o Positivo Alfa – o único fabricado por uma empresa daqui, mas que infelizmente não fica fora da faixa de preço altíssima, entre 700 e 800 reais -, o iriver Story – o único do mercado a vir com uma simpática canetinha, vejam só – e outros que também não fogem ao problema: compará-los aos melhores do mercado (leia-se Kindle, Nook e Kobo) é como colocar um Uno Mille de 100 mil reais ao lado de uma BMW de 10 mil.

Infelizmente, até agora a única iniciativa nacional que tivemos foi essa da Positivo, por um preço nada atraente. Ao que tudo indica, vai ser mesmo a Amazon, com sua promessa de entrar chutando a porta de editores e livreiros no ano que vem, que vai realmente inaugurar esse mercado por aqui também. Uma pena? Eu acho, considerando a oportunidade que empresas de tecnologia nacionais estão perdendo. Entendo que seja difícil competir com os preços praticados por uma corporação gigante que está disposta a perder dinheiro na venda de hardware para comercializar cada vez mais conteúdo, mas 800 reais num e-reader simples é quase obsceno. E, se editores e livrarias estão se descabelando pela chegada dos grandes players ao Brasil, acredito que a maioria dos leitores não se incomodaria nem um pouco de ter aparelhos melhores a preços bem menores. Estou errada?

 

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